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O pedreiro que contratou o executivo

O pedreiro Sidnei (à esq.), 34 anos, e o executivo Marcelo, 32: uma decisão de carreira fora do comum

Em maio do ano passado, o engenheiro civil mineiro Marcelo Miranda, de 32 anos, voltava de uma temporada de quase dois anos de estudos na Universidade Stanford, na Califórnia, onde fazia mestrado em administração e negócios, para um ciclo de entrevistas de emprego no Brasil. Como queria regressar ao país após a conclusão do curso, ele vinha mantendo contato com amigos e ex-colegas de trabalho.

Antes mesmo de desembarcar no aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, tinha 17 conversas agendadas com executivos de grandes multinacionais. No final de sete dias de reuniões, cafezinhos, almoços e jantares, Marcelo recebeu 13 propostas de emprego para trabalhar em grandes empresas brasileiras e multinacionais com escritório no país. Marcelo, no entanto, acabou optando por trabalhar numa empresa pequena, desconhecida e cuja sede fica na Região Centro Oeste — a construtora BS, fundada pelo catarinense Sidnei Borges dos Santos, de 34 anos, que começou a vida como pedreiro.

O salário atual de Marcelo é 40% mais baixo do que a média das ofertas que ouviu. Os benefícios, bem mais magros — nada de carro, a que teria direito como executivo de uma grande empresa, de bônus polpudos ou pacote de ações por resultados. 5 é o número de fábricas que a BS quer construir neste ano Apesar da pouca idade, Marcelo tem um currículo respeitável. Do tipo que faz brilhar os olhos de qualquer profissional de recursos humanos.

Estava próximo de concluir um mestrado na Universidade Stanford. A BS era das últimas conversas na lista e Marcelo quase descartou o encontro. “Quando o Sidnei me telefonou, já não tinha mais agenda”, lembra. O engenheiro topou porque se comoveu com a disposição de Sidnei e Eliane, que se deslocaram de Porto Velho para São Paulo. A conversa durou cinco horas. Marcelo ficou de dar uma resposta e voltou para os Estados Unidos para se encontrar com a mulher e o filho. Cinco dias depois, aceitou a proposta. Em três semanas, ele desembarcou em Porto Velho para ser vice-presidente da BS.

O engenheiro abriu mão do status de executivo na maior vitrine profissional do país para se juntar a um empreendedor visionário, que criou um método de construção inovador, usando moldes, como se fossem formas de bolo, para construir casas pré-fabricadas de 36 a 120 metros quadrados. O menor módulo custa 40 000 reais. O maior sai por 250 000 reais.

DE PEDREIRO A EMPRESÁRIO
Filho de agricultores, Sidnei começou a trabalhar no campo com o pai aos 12 anos, em Xaxim, no oeste de Santa Catarina. Abandonou a escola após a quarta série do Ensino Fundamental e pouco tempo depois foi trabalhar em canteiros de obra. Aos 18 anos, o pedreiro recebeu uma proposta para se mudar para Sorriso, no Mato Grosso, e trabalhar na empreiteira de um primo que ele mal conhecia. Sidnei sofreu seu primeiro viés. A empreiteira estava cheia de dívidas. Logo, o primo abandonou o negócio, deixando projetos inacabados. Sidnei assumiu o comando, terminou as obras pendentes e reconquistou a confi ança dos clientes.

Novos trabalhos apareceram e aos poucos ele foi se capitalizando. Montou uma pequena empreiteira — o embrião da BS. Sidnei era o visionário e o executor. A esposa, Eliane, formada em ciências contábeis, assumiu as fi nanças do negócio. A EMPRESA E O MÉTODO A BS começou a decolar em 2002, quando Sidnei passou a fazer peças pré-moldadas para galpões agrícolas e industriais. Dois anos depois, faturava 11,5 milhões de reais. O salto, porém, ocorreu em 2007, quando ele fechou dois contratos com a Sadia. No primeiro, entregou um galpão para a criação de suínos.

No segundo, Sidnei assumiu o compromisso de entregar 1 500 casas pré-fabricadas em 12 meses, que seriam usadas por trabalhadores da Sadia em Lucas do Rio Verde, no Mato Grosso. Detalhe: Sidnei fechou o contrato tendo apenas uma vaga ideia de como seriam os moldes de uma casa de concreto. Ele conseguiu desenvolver as casas e a BS faturou 60 milhões de reais em 2008, cinco vezes mais que em 2007. A experiência diz bastante sobre a personalidade de Sidnei. Ele é um empreendedor nato. Dono de uma notável capacidade de enxergar oportunidades, ele costuma aceitar projetos e partir para a execução, muitas vezes antes mesmo de planejar a obra. Por causa desse perfi l arrojado, correu riscos, quebrou, se reergueu e, um dia, desenvolveu um sistema construtivo inovador. Olhando para uma caixa de sapatos, Sidnei teve a ideia de fabricar casas em escala industrial.

Em vez de empilhar tijolos ou fabricar as diversas peças (paredes, vigas e vergalhões) pré-moldadas para montar em canteiros de obras, as casas da BS são fabricadas inteiras, com espaço para fi ação elétrica e encanamento. Podem ser transportadas em cima de caminhões, já pintadas, com porta e janela. É possível começar e terminar uma casa em 24 horas (o processo convencional de pré-moldagem leva uma semana). “A BS se destaca pelo alto grau de industrialização do seu processo, que faz com que ele seja muito rápido.

Na construção, isso é inovador”, diz Ary Fonseca Júnior, consultor da Associação Brasileira de Cimento Portland (ABCP). Sidnei e Eliane ganharam notoriedade quando receberam o prêmio Endeavor e EXAME PME de empreendedorismo, em novembro de 2008, realizado pela ONG de apoio ao empreendedorismo e pela Editora Abril, que publica as revistas VOCÊ S/A e EXAME. “Sidnei tem uma grande capacidade de entender o que o mercado quer”, diz Bianca Martinelli, gerente de serviços ao empreendedor da Endeavor. A construtora de Sidnei e Eliane cresceu rápido — tem 2 000 funcionários em duas fábricas, uma perto de Sorriso (MT) e outra em Jaci-Paraná, a 100 quilômetros de Porto Velho.

Apesar disso, sua gestão é desorganizada. Até o início de 2009, não tinha estruturados processos básicos como gestão fi – nanceira, indicadores de resultados e funil de vendas. A Endeavor orientou Sidnei a procurar um executivo profi ssional, capaz de botar ordem na casa. A situação era urgente: no mesmo ano, a BS assinou contrato com o consórcio Energia Sustentável do Brasil, que está construindo a Usina Hidrelétrica de Jirau, em Rondônia. Sidnei negociou a construção de uma minicidade, com 1 000 casas, escola, hospital, posto policial, centro comercial e toda a infraestrutura necessária. Tudo no prazo de um ano e meio. Para gerenciar o contrato — o maior da história da BS, no valor de 209 milhões de reais —, Sidnei transferiu a sede e cerca de 70% da estrutura da empresa de Sorriso para Porto Velho no começo de 2009. “Eu sabia que precisaria de ajuda dali pra frente, porque não tenho conhecimentos gerenciais sufi – cientes para isso”, diz Sidnei.

NECESSIDADE DE PROFISSIONALIZAR
“A gente vivia correndo de um lado ao outro sem muito foco”, diz Agláucio Viana de Souza, diretor de suprimentos, que antes da chegada de Marcelo era responsável por tudo o que não era referente a recursos humanos e engenharia, como ele mesmo costuma dizer. Desde o primeiro dia, Marcelo buscou estruturar processos e criar mecanismos para dar suporte ao plano de expansão da construtora.

Ele foi contratado para ser vice-presidente executivo. No mês passado, virou presidente da empresa. Como parte da negociação, recebeu carta branca de Sidnei para tocar a empresa. Passou um mês conversando com o pessoal, entendendo como as coisas funcionavam por lá e qual era a função de cada um. Marcelo procurou a Fundação Dom Cabral, de Minas Gerais, para ajudar na criação de indicadores e na padronização de processos, para que a BS passasse a medir os resultados e a gerenciar o planejamento. Daqui pra frente, a construtora terá o desafio de reter pessoas. Com isso, a área de recursos humanos tem sido outro alvo por lá. Neste mês, a empresa inicia a implantação de ferramentas como avaliação de desempenho e gestão por competências. No mês passado, Sidnei e Marcelo anunciaram a distribuição de ações da empresa para os diretores.

O objetivo é estender a prática aos demais funcionários a partir deste ano, baseado nos modelos de empresas como AmBev e Odebrecht. O engenheiro procurou manter boa parte dos 1 200 profissionais que já estavam em Porto Velho — menos de 10 pessoas foram demitidas. A reestruturação começou pela defi nição de novas diretorias, que são atualmente seis. Três dos diretores já estavam na BS. Os outros três foram trazidos por Marcelo. Equipes inteiras tiveram — e ainda têm — de ser montadas.

O que anima Sidnei e Marcelo é a fase de intensa atividade pela qual passam os programas de habitação popular federal e estaduais. A estratégia da BS é construir pelo menos três fábricas no Brasil no ano que vem. O ponto fraco da empresa é a logística. Como as casas saem prontas da fábrica, transportálas até o destino final de caminhão é complicado. Por isso, as fábricas precisam estar próximas dos clientes. A BS pretende fechar 2010 com cinco fábricas, instalando três unidades novas em Pernambuco, Acre e Distrito Federal.

A ideia é aumentar a capacidade de produção de 10 000 casas para 30 000 casas por ano. “Queremos estar entre as cinco maiores construtoras do Brasil em cinco anos”, diz Marcelo. “O lado empreendedor do Marcelo é muito forte, provavelmente foi o grande motivador para ele aceitar o convite da BS”, diz o headhunter Luiz Carlos Cabrera, sócio da PMC Amrop, empresa de executive search de São Paulo.

Em Stanford, uma universidade que dissemina a visão empreendedora, o engenheiro deve ter aperfeiçoado essa competência. Segundo Luiz Carlos, para uma pessoa com senso de autonomia e independência acentuado, escolher uma empresa como a BS faz todo o sentido. “Por ter passado por outras construtoras, ele sabe que autonomia é uma coisa que ele não terá nessas empresas”, diz Luiz Carlos. Segundo o headhunter, as grandes construtoras são “o templo da hierarquia e da experiência acumulada”. Um jovem executivo sabe que numa delas o crescimento é lento. A história de Marcelo e do encontro com a BS, de Sidnei, mostra que há oportunidades em empresas que muitas vezes não estão no radar nem de jovens profi ssionais e, muitas vezes, nem dos mais experientes. Nessas pequenas e médias companhias há ótimas oportunidades para crescer, se desenvolver e até inovar. Com a vantagem, como bem observou Luiz Carlos, de que você pode ter mais autonomia e estar bem próximo do centro de decisão.

Fonte: Renata Avediani – em 05.01.2010

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